(Apocalipse 2:4)
Ao longo da história bíblica e da caminhada da Igreja, vemos um padrão que se repete: aquilo que nasce no fogo do Espírito, com o passar do tempo corre o risco de se transformar em tradição vazia.
Muitas igrejas começam cheias de vida, dependência de Deus, oração intensa e ousadia espiritual. Porém, aos poucos, podem entrar em um processo quase imperceptível de retrocesso: trocam o altar pela rotina, a presença de Deus pela organização, o mover do Espírito pela previsibilidade do culto.
Esse caminho geralmente segue uma sequência: movimento → instituição → acomodação.
E isso não é novo. A Bíblia está repleta de exemplos.
1. O retrocesso espiritual sempre começa no coração
Jesus foi direto ao falar com a igreja de Éfeso:
“Conheço as tuas obras, o teu trabalho árduo e a tua perseverança… tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta às primeiras obras.”
(Apocalipse 2:2–5)
Observe:
Eles tinham obras. Tinham organização. Tinham perseverança.
Mas perderam o essencial: o primeiro amor.
O retrocesso não começou na liturgia.
Começou no coração.
Assim também foi com Israel:
“O meu povo cometeu dois males: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas rotas, que não retêm água.”
(Jeremias 2:13)
Trocaram a fonte viva por reservatórios rachados.
Sempre que a igreja deixa de depender diretamente de Deus, passa a viver de sistemas humanos.
2. Quando o mover vira método
No início da igreja primitiva, lemos:
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações… E em cada alma havia temor, e muitos sinais e maravilhas eram feitos pelos apóstolos.”
(Atos 2:42–43)
E ainda:
“Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum.”
(Atos 2:44)
O poder não vinha da estrutura.
Vinha da comunhão, da oração e da presença do Espírito.
Mais tarde, Paulo alerta:
“A letra mata, mas o Espírito vivifica.”
(2 Coríntios 3:6)
Quando a igreja passa a funcionar apenas na “letra”, no protocolo e na agenda, sem vida espiritual, ela mantém a forma — mas perde o fogo.
Sansão é um exemplo claro disso:
“Ele não sabia que o Senhor já se tinha retirado dele.”
(Juízes 16:20)
Continuou se movendo como antes, mas a presença já não estava mais ali.
Esse é um dos maiores perigos: continuar fazendo culto, pregando, cantando — sem perceber que o Espírito foi entristecido.
3. O medo dos excessos gera o engessamento do Espírito
Muitas comunidades, após viverem exageros, escândalos ou erros doutrinários, tentam “corrigir” o caminho eliminando o espaço do Espírito.
Mas Paulo orienta:
“Não apagueis o Espírito.”
(1 Tessalonicenses 5:19)
E também:
“Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.”
(2 Coríntios 3:17)
Liberdade não é bagunça.
Mas controle excessivo também não é santidade.
Jesus confrontou líderes religiosos que tinham aparência de piedade, mas estavam vazios por dentro:
“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.”
(Mateus 15:8)
Eles tinham templo, liturgia e tradição — mas não tinham intimidade.
4. A busca por aceitação substitui a identidade espiritual
Em vez de agradar a Deus, muitas igrejas passam a buscar aceitação social.
Paulo advertiu:
“Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas, tendo coceira nos ouvidos, amontoarão para si mestres segundo as suas próprias vontades.”
(2 Timóteo 4:3)
E também declarou:
“Se eu ainda agradasse aos homens, não seria servo de Cristo.”
(Gálatas 1:10)
Quando a mensagem deixa de confrontar o pecado e passa apenas a motivar emoções, o púlpito vira palco — e o altar perde seu lugar.
Jesus nunca adaptou sua mensagem para manter multidões:
“Quem quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.”
(Lucas 9:23)
Por isso muitos o deixaram (João 6:66).
Ele preferiu perder seguidores a perder a verdade.
5. O papel da liderança
A igreja sempre reflete seus líderes.
Provérbios declara:
“Onde não há visão, o povo perece.”
(Provérbios 29:18)
Se a liderança ora pouco, a igreja ora pouco.
Se evita confronto, a igreja se acomoda.
Se troca revelação por administração, a igreja vira empresa.
Deus disse a Josué:
“Nunca se aparte da tua boca o livro desta lei; antes medita nele dia e noite…”
(Josué 1:8)
Líderes são guardiões do altar.
Quando Davi pecou, toda a nação sofreu.
Quando Ezequias restaurou o culto, o povo voltou para Deus.
A direção espiritual começa no topo, mas se espalha por todo o corpo.
6. O papel dos obreiros e dos membros
Obreiros não são funcionários do sistema.
São cooperadores do Reino.
Paulo diz:
“Somos cooperadores de Deus.”
(1 Coríntios 3:9)
Quando obreiros se calam diante de desvios, protegem cargos ou deixam de interceder, passam a sustentar estruturas vazias.
E quanto aos membros:
“Sede praticantes da palavra, e não somente ouvintes.”
(Tiago 1:22)
Igreja não é plateia. É corpo.
Quando o povo prefere conforto a compromisso, espetáculo a santidade, a transição espiritual se consolida.
7. Como evitar esse retrocesso?
Não é mudando placa.
Não é modernizando apenas o visual.
Não é criando novos departamentos.
É voltando ao altar.
Jesus foi claro à igreja de Laodiceia:
“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente… estou a ponto de vomitar-te da minha boca.”
(Apocalipse 3:15–16)
E em seguida oferece o caminho:
“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei…”
(Apocalipse 3:20)
O retorno começa com arrependimento.
Uma igreja entra em retrocesso quando troca:
presença por programação
dependência por controle
discipulado por crescimento numérico
altar por palco
cruz por conforto
E só se restaura quando decide voltar às primeiras obras.
Como disse o profeta Joel:
“Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor vosso Deus.”
(Joel 2:13)
Ainda há tempo.
Enquanto Jesus estiver à porta, ainda existe esperança.

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