Ser semelhante à igreja primitiva é um objetivo espiritual que devemos perseguir. Sabemos, porém, que não podemos simplesmente reproduzir, em nossos dias, todas as circunstâncias daquela igreja. O mundo mudou, a sociedade mudou e a própria estrutura das igrejas passou por profundas transformações ao longo dos séculos.
Nós não temos diante de nós a igreja primitiva em sua forma original. Temos, entretanto, algo precioso: o testemunho preservado nas Escrituras. A Bíblia nos mostra seus princípios, sua maneira de viver a fé e, principalmente, aquilo que Deus deseja produzir no coração daqueles que pertencem ao Corpo de Cristo.
Atos 2:42 diz:
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.”
É justamente essa comunhão que eu mais desejo ver crescer dentro da nossa comunidade.
Não desejo apenas uma igreja cheia. Desejo uma igreja unida.
Não desejo apenas pessoas sentadas lado a lado no mesmo templo. Desejo pessoas que consigam caminhar lado a lado.
Que não haja disputa por espaço, inveja, ciúme ou competição. Que ninguém precise diminuir o outro para aparecer. Que ninguém tenha medo de que o dom do irmão faça desaparecer o seu próprio espaço.
A Bíblia ensina:
“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.”
Filipenses 2:3
Na igreja de Cristo, o dom de uma pessoa não deveria ser uma ameaça para outra. O crescimento do irmão deveria ser motivo de alegria.
Paulo explica isso usando o corpo humano como exemplo. O olho não pode dizer à mão: “Não tenho necessidade de ti”; nem a cabeça aos pés: “Não tenho necessidade de vós” (1 Coríntios 12:21).
Isso significa que ninguém é descartável e ninguém deveria ser tratado como concorrente.
Imagine uma igreja onde alguém canta bem e os outros se alegram. Alguém ensina bem e os outros apoiam. Alguém evangeliza e os demais cooperam. Alguém tem capacidade para liderar e isso não provoca insegurança, mas gratidão.
Esse é o ambiente que desejo.
Também desejo que não existam pessoas que simplesmente deixem de falar umas com as outras, que tratem o irmão com indiferença ou que carreguem ressentimentos silenciosos.
Jesus foi muito claro:
“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.”
João 13:35
O amor cristão não pode ser apenas uma palavra pronunciada no púlpito. Ele precisa aparecer nos relacionamentos.
Precisamos aprender a enxergar as qualidades das pessoas sem permitir que seus defeitos sejam maiores aos nossos olhos do que aquilo que Deus está fazendo nelas.
Todos nós temos limitações. Todos nós precisamos crescer. A igreja não é uma reunião de pessoas perfeitas; é uma comunidade de pessoas que estão sendo transformadas por Cristo.
Por isso Paulo escreveu:
“Suportando-vos uns aos outros em amor.”
Efésios 4:2
“Suportar” aqui não significa simplesmente tolerar alguém com dificuldade. Significa carregar, acolher e perseverar no relacionamento, reconhecendo que Deus também está trabalhando naquela pessoa.
E há outra questão que considero fundamental: não impedir que os dons apareçam.
Quando uma pessoa recebe de Deus uma capacidade, uma virtude ou um chamado, a igreja deveria criar condições para que aquilo fosse colocado a serviço do Reino.
Pedro escreveu:
“Cada um administre aos outros o dom como o recebeu.”
1 Pedro 4:10
O dom não pertence exclusivamente à pessoa. Ele foi recebido para edificação do Corpo.
Por isso, quando alguém possui uma qualidade e essa qualidade é deliberadamente sufocada por insegurança, ciúme ou disputa, não estamos apenas prejudicando aquela pessoa. Estamos deixando de aproveitar aquilo que Deus poderia usar para abençoar toda a comunidade.
Paulo resume esse princípio dizendo:
“Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros.”
Romanos 12:5
É isso que eu desejo para a nossa comunidade: que ninguém precise competir para ser reconhecido, porque todos compreenderão que existe lugar para servir.
Que aquele que está na frente não tenha medo de quem está chegando.
Que aquele que está chegando não queira derrubar quem está na frente.
Que os mais experientes ensinem os mais novos.
Que os mais novos sejam recebidos pelos mais experientes.
Que os dons sejam desenvolvidos.
Que as oportunidades sejam compartilhadas.
Que os erros sejam corrigidos com amor.
Que as virtudes sejam reconhecidas.
Que ninguém seja diminuído para que outro possa aparecer.
E que Cristo seja sempre maior do que qualquer posição, função ou ministério.
Talvez não consigamos reproduzir integralmente a estrutura da igreja de Atos, porque vivemos em outro tempo e em outra realidade. Mas podemos buscar viver os mesmos princípios espirituais que a Bíblia no des apresenta.
Atos 2:46-47 descreve uma comunidade que vivia com alegria, simplicidade, comunhão e louvor a Deus.
É esse espírito que desejo ver cada vez mais entre nós.
Uma igreja onde o amor não seja apenas pregado, mas praticado.
Onde a comunhão não seja apenas desejada, mas construída.
Onde os dons não sejam reprimidos, mas utilizados.
Onde ninguém precise disputar espaço, porque todos compreenderam que o espaço pertence a Cristo.
E, acima de tudo, uma comunidade na qual as pessoas possam olhar para nós e perceber não a nossa perfeição, mas a presença de Jesus entre nós.
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