Existe uma pergunta que a Igreja precisa voltar a fazer diante da música cristã contemporânea:
Para quem estamos cantando?
A pergunta parece simples, mas talvez seja uma das questões mais importantes para compreendermos a transformação ocorrida entre os cânticos registrados nas Escrituras e boa parte da produção musical cristã de nossos dias.
Não se trata de afirmar que toda música gospel atual seja ruim, superficial ou comercial.
Também não significa que um compositor cristão não possa receber remuneração por seu trabalho, que uma gravadora não possa existir ou que uma música não possa alcançar milhões de pessoas.
A questão é mais profunda:
qual é o centro da música?
O SALMISTA CANTAVA PARA DEUS
Os Salmos nos apresentam uma realidade extraordinariamente humana.
Davi canta quando está feliz.
Canta quando está angustiado.
Canta quando vence.
Canta quando é perseguido.
Canta quando reconhece seu pecado.
Canta quando experimenta a presença de Deus.
E canta também quando não compreende o silêncio do Senhor.
No Salmo 13, encontramos a angústia:
“Até quando te esquecerás de mim, Senhor?”
No Salmo 23, encontramos confiança:
“O Senhor é o meu pastor; nada me faltará.”
No Salmo 51, encontramos arrependimento:
“Cria em mim, ó Deus, um coração puro.”
No Salmo 103, encontramos celebração:
“Bendize, ó minha alma, ao Senhor.”
São emoções diferentes, circunstâncias diferentes e momentos diferentes.
Mas existe um ponto em comum:
o coração do salmista está voltado para Deus.
O Salmo não nasce prioritariamente da necessidade de agradar uma audiência.
Nasce da necessidade de falar com Deus.
O SALMO ERA UMA EXPRESSÃO DA ALMA
Essa talvez seja uma das maiores riquezas dos Salmos.
Eles não apresentam uma espiritualidade artificial.
Davi não precisava fingir que estava bem quando não estava.
Ele podia perguntar:
“Por que estás abatida, ó minha alma?”
Podia clamar:
“Ouve, Senhor, a minha oração.”
Podia confessar:
“Pequei contra ti.”
E podia também declarar:
“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum.”
O salmista colocava diante de Deus aquilo que estava acontecendo dentro dele.
A música era instrumento de relacionamento.
Era oração.
Era confissão.
Era clamor.
Era celebração.
Era memória.
Era esperança.
UMA DIFERENÇA FUNDAMENTAL
Naquele contexto, não existia indústria fonográfica.
Não existiam gravadoras.
Não existiam plataformas de streaming.
Não existiam algoritmos.
Não existiam rankings.
Não existiam milhões de visualizações.
Não existiam estratégias digitais para transformar uma composição em produto de consumo.
Hoje, entretanto, a música está inserida em uma gigantesca estrutura de produção e distribuição.
Existe mercado.
Existe público.
Existe concorrência.
Existe divulgação.
Existe estratégia.
Existe monetização.
E tudo isso produz uma mudança inevitável na maneira como muitas músicas são pensadas.
A pergunta pode deixar de ser:
“O que Deus deseja receber?”
E passar a ser:
“O que o público deseja ouvir?”
Essa mudança parece pequena.
Mas espiritualmente pode representar uma inversão completa de prioridades.
DE ADORADORES A CONSUMIDORES
Quando a música cristã passa a ser tratada essencialmente como produto, o ouvinte deixa de ser visto primeiramente como alguém que precisa encontrar Deus e passa a ser tratado como consumidor.
E consumidor precisa consumir.
Uma música.
Depois outra.
Depois outra.
Um álbum.
Depois outro.
Um artista.
Depois outro.
Um evento.
Depois outro.
Um conteúdo.
Depois outro.
O sistema precisa continuar produzindo e o público precisa continuar consumindo.
Não há nada de errado com produção, distribuição ou remuneração.
O problema surge quando a lógica do consumo passa a determinar a essência daquilo que deveria conduzir o homem à adoração.
A MÚSICA QUE CONFORTA, MAS NÃO TRANSFORMA
Existe outro fenômeno que merece nossa atenção.
Muitas músicas cristãs contemporâneas são construídas em torno de necessidades emocionais específicas.
Canções para quem está sofrendo.
Para quem está esperando um milagre.
Para quem está enfrentando uma batalha.
Para quem deseja uma vitória.
Para quem precisa de uma resposta.
Para quem está triste.
Isso pode ser legítimo.
Os próprios Salmos fazem isso.
O problema aparece quando a música se limita a oferecer conforto emocional sem conduzir o indivíduo à verdade bíblica, ao arrependimento, à santidade e à obediência.
Jesus não veio simplesmente para nos proporcionar uma experiência emocional.
Ele chamou pessoas para segui-lo.
“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.”
Lucas 9:23
Essa mensagem não é necessariamente aquela que o consumidor deseja ouvir.
Mas é a mensagem do Evangelho.
O EVANGELHO NÃO EXISTE PARA MASSAGEAR O EGO
O verdadeiro louvor não precisa necessariamente dizer aquilo que queremos ouvir.
Às vezes, precisa dizer aquilo que precisamos ouvir.
Davi não escreveu somente músicas de vitória.
Escreveu o Salmo 51 depois de ser confrontado com seu pecado.
Ali não existe tentativa de preservar sua imagem.
Existe quebrantamento.
“Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto.”
Essa é uma dimensão da adoração que não pode ser perdida.
O verdadeiro louvor também confronta.
Ele pode nos levar às lágrimas.
Pode revelar nossa fragilidade.
Pode denunciar nossa desobediência.
Pode nos fazer ajoelhar.
Pode nos conduzir ao arrependimento.
Pode nos colocar diante da santidade de Deus.
EMOÇÃO NÃO É SINÔNIMO DE ADORAÇÃO
Vivemos em uma época de enorme capacidade técnica.
Som de alta qualidade.
Iluminação.
Telões.
Produções cinematográficas.
Excelentes músicos.
Arranjos sofisticados.
Plataformas digitais.
Tudo isso pode ser utilizado para a glória de Deus.
Mas existe um perigo:
confundir excelência técnica com presença de Deus.
Uma música pode ser tecnicamente perfeita e espiritualmente vazia.
Pode produzir lágrimas sem produzir arrependimento.
Pode provocar arrepios sem produzir transformação.
Pode fazer milhares de pessoas cantarem juntas sem necessariamente aproximá-las de Deus.
Jesus advertiu:
“Este povo honra-me com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim.”
Mateus 15:8
Portanto, cantar não é suficiente.
É preciso adorar.
A INSPIRAÇÃO DA ESCRITURA E A INSPIRAÇÃO MUSICAL
Aqui precisamos estabelecer uma distinção bíblica importante.
A Bíblia afirma:
“Toda a Escritura é inspirada por Deus...”
2 Timóteo 3:16
Essa afirmação diz respeito à Escritura.
Portanto, não podemos simplesmente colocar uma composição contemporânea no mesmo nível de um texto bíblico e afirmar que ambos possuem a mesma autoridade ou inspiração.
Um compositor cristão pode ser profundamente dirigido pelo Espírito Santo.
Pode escrever uma música baseada na Bíblia.
Pode compor depois de uma experiência espiritual genuína.
Pode produzir algo que edifique profundamente a Igreja.
Mas isso não transforma automaticamente sua composição em Escritura.
A Bíblia é a Palavra inspirada e normativa.
A música cristã deve estar submetida a essa Palavra.
E esse é um critério fundamental:
não devemos medir a Bíblia pela música; devemos medir a música pela Bíblia.
O PROBLEMA NÃO É O MERCADO
Precisamos ser justos.
Não existe pecado em um músico viver de sua profissão.
Não existe pecado em uma gravadora obter lucro.
Não existe pecado em uma produção musical ser profissional.
Não existe pecado em uma música alcançar milhões de pessoas.
Paulo mesmo reconheceu o direito daqueles que trabalham no ministério receberem sustento.
O problema começa quando o dinheiro passa de ferramenta a finalidade.
Quando o sucesso passa de consequência a objetivo.
Quando o público passa a ser mais importante que Deus.
Quando a popularidade passa a determinar a mensagem.
Quando o algoritmo passa a decidir aquilo que será cantado.
Quando aquilo que produz maior consumo começa a substituir aquilo que produz maior edificação.
O MERCADO PODE SER FERRAMENTA
A tecnologia não é nossa inimiga.
Podemos usar YouTube.
Podemos usar Instagram.
Podemos usar Spotify.
Podemos usar rádio.
Podemos usar televisão.
Podemos usar todas as ferramentas disponíveis.
Mas precisamos lembrar de algo fundamental:
a ferramenta deve servir à mensagem; a mensagem não deve servir à ferramenta.
Paulo declarou:
“Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns.”
1 Coríntios 9:22
Os meios podem mudar.
A tecnologia pode mudar.
A linguagem pode mudar.
Os instrumentos podem mudar.
Os estilos musicais podem mudar.
Mas Cristo não muda.
E a verdade do Evangelho também não pode ser moldada pelas exigências do mercado.
A PERGUNTA QUE PRECISA VOLTAR
Talvez a Igreja precise recuperar uma pergunta que os Salmos nos ensinam a fazer:
“Senhor, Tu estás ouvindo?”
Antes de perguntar:
“Quantas pessoas vão ouvir?”
Perguntar:
“Deus será glorificado?”
Antes de perguntar:
“Quantas visualizações teremos?”
Perguntar:
“Essa música conduzirá alguém para Cristo?”
Antes de perguntar:
“Isso vai viralizar?”
Perguntar:
“Isso está de acordo com a Palavra?”
Antes de buscar aplausos, buscar a presença.
Antes de buscar seguidores, buscar santidade.
Antes de buscar consumidores, buscar adoradores.
DO TEMPLO AO PALCO
O grande desafio da música cristã contemporânea talvez seja justamente este:
não permitir que o palco substitua o altar.
O palco pode ter milhares de pessoas.
O altar pode estar diante de uma única pessoa e de Deus.
O palco pode produzir aplausos.
O altar produz entrega.
O palco pode produzir fama.
O altar produz quebrantamento.
O palco pergunta:
“Quem está me vendo?”
O altar pergunta:
“Senhor, Tu estás recebendo?”
Essa é a diferença.
PARA QUEM ESTAMOS CANTANDO?
A questão não é voltar ao passado.
Não precisamos abandonar a tecnologia.
Não precisamos rejeitar novos estilos.
Não precisamos demonizar músicos profissionais.
Não precisamos afirmar que toda música contemporânea é comercial ou superficial.
Precisamos apenas recuperar o centro.
Deus.
Porque quando Deus deixa de ser o centro, a música pode continuar sendo chamada de gospel, pode continuar falando de vitória, bênção, milagre, propósito e fé, mas corre o risco de perder aquilo que lhe dá significado.
Os Salmos nos mostram uma música que nasce no coração e sobe para Deus.
A indústria moderna muitas vezes trabalha de outra maneira: cria um produto, encontra um público e busca o maior alcance possível.
As duas coisas podem até coexistir.
Mas jamais devemos permitir que a segunda substitua a primeira.
A pergunta permanece:
Estamos cantando para que Deus seja ouvido ou para que sejamos ouvidos pelo público?
Essa talvez seja uma das grandes questões que a Igreja precisa enfrentar na música cristã do nosso tempo.
Porque o verdadeiro louvor não começa no palco.
Começa no coração.
E não termina nos ouvidos da multidão.
Termina diante do trono de Deus.
“Tudo quanto tem fôlego louve ao Senhor. Louvai ao Senhor.”
Salmo 150:6

Comentários
Postar um comentário