Existe uma diferença profunda entre conhecer o Evangelho e viver o Evangelho. Podemos conhecer versículos, frequentar cultos, exercer ministérios, ocupar posições de liderança e, ainda assim, permitir que nosso comportamento contradiga aquilo que professamos.
Em Gálatas 2:11–21, encontramos exatamente esse problema. Paulo encontra Pedro em Antioquia e o confronta porque sua atitude havia se afastado da verdade do Evangelho. Pedro anteriormente comia com os gentios. Porém, quando chegaram determinados homens ligados ao grupo da circuncisão, ele se afastou deles por medo daqueles que defendiam a circuncisão.
Paulo não relativizou a situação:
“Quando, porém, vi que não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos...”
Gálatas 2:14
Aqui encontramos uma questão extremamente atual: o que acontece quando a preocupação com a aprovação dos homens começa a falar mais alto do que a fidelidade a Deus?
QUANDO O MEDO DOS HOMENS ALTERA NOSSO COMPORTAMENTO
Pedro conhecia a verdade. Sabia que Deus estava recebendo os gentios pela fé em Cristo. Entretanto, diante da pressão de determinados homens, sua postura mudou.
Esse é um dos perigos mais silenciosos da vida cristã. Nem sempre abandonamos a fé ou negamos a Cristo. Às vezes, simplesmente começamos a adaptar nossa conduta para sermos aceitos por determinadas pessoas.
A Bíblia declara:
“Porque persuado eu agora a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo.”
Gálatas 1:10
O Evangelho não pode ser moldado pela opinião daqueles que estão ao nosso redor. A verdade não muda porque alguém não gostou dela.
A RELIGIÃO PODE CRIAR BARREIRAS QUE CRISTO DERRUBOU
O problema em Antioquia não era simplesmente uma questão de convivência à mesa. Havia algo muito mais profundo: a atitude de Pedro transmitia a ideia de que alguns irmãos eram menos aceitos do que outros.
Paulo imediatamente apresenta o fundamento:
“Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo...”
Gálatas 2:16
Aqui está o coração do Evangelho:
A salvação não é conquistada pela performance religiosa.
Não é a quantidade de cargos que nos justifica. Não é o tempo de igreja. Não é o título. Não é a tradição. Não é a aparência. Não é a aprovação de uma liderança.
É Cristo.
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus.”
Efésios 2:8
QUANDO A RELIGIOSIDADE TENTA RECONSTRUIR O QUE CRISTO DESTRUIU
Paulo afirma:
“Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, a mim mesmo me constituo transgressor.”
Gálatas 2:18
Cristo havia inaugurado uma nova realidade. A justiça vem pela fé. A salvação é pela graça. A cruz é suficiente.
Voltar a colocar nossa confiança no mérito religioso significa reconstruir aquilo que o Evangelho derrubou.
Podemos sair do mundo e ainda carregar para dentro da Igreja a mentalidade do mundo. Podemos abandonar determinados pecados e continuar presos ao orgulho. Podemos deixar velhos vícios e continuar escravos da necessidade de reconhecimento. Podemos falar de Cristo e, ao mesmo tempo, colocar o homem no centro.
O EVANGELHO NÃO É UM SISTEMA DE MÉRITOS
Existe uma religião baseada naquilo que eu faço para Deus. O Evangelho anuncia aquilo que Deus fez por mim em Cristo.
A religião pergunta: “O que preciso fazer para ser aceito?”
O Evangelho responde: “Cristo fez por você aquilo que você jamais poderia fazer sozinho.”
Isso não significa que o cristão não deva obedecer. A verdadeira graça produz transformação.
“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras.”
Efésios 2:10
As boas obras não compram nossa salvação.
Elas revelam que fomos alcançados pela graça.
GRAÇA NÃO É LICENÇA PARA VIVER NO PECADO
Também precisamos rejeitar outro erro. Dizer que somos salvos pela graça não significa dizer que podemos viver de qualquer maneira.
Paulo pergunta:
“Permaneceremos nós no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum!”
Romanos 6:1–2
A graça não é uma autorização para continuar no pecado.
A graça nos tira do domínio do pecado e nos conduz para uma nova vida.
“JÁ ESTOU CRUCIFICADO COM CRISTO”
Chegamos ao centro dessa mensagem:
“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim.”
Gálatas 2:20
Essa talvez seja uma das maiores dificuldades da vida cristã: tirar o “eu” do trono.
O “eu” quer reconhecimento. O “eu” quer aplausos. O “eu” quer posição. O “eu” quer ser visto. O “eu” quer ter razão. O “eu” quer controlar.
Mas Paulo declara:
“Já estou crucificado com Cristo.”
Isso significa que Cristo não é apenas parte da nossa vida.
Cristo é o centro da nossa vida.
João Batista compreendeu esse princípio:
“É necessário que ele cresça e que eu diminua.”
João 3:30
Esse é o caminho da maturidade espiritual:
Menos ego. Mais Cristo.
Menos aparência. Mais verdade.
Menos competição. Mais serviço.
Menos religião. Mais Evangelho.
UMA IGREJA QUE PRECISA VIVER O QUE PREGA
Gálatas 2 não é simplesmente uma história sobre Paulo e Pedro. É também um espelho para a Igreja.
Precisamos perguntar:
Nossa prática corresponde à nossa pregação?
Falamos sobre amor, mas sabemos amar?
Falamos sobre perdão, mas sabemos perdoar?
Falamos sobre misericórdia, mas sabemos demonstrá-la?
Falamos sobre graça, mas sabemos oferecê-la?
Falamos sobre humildade, mas aceitamos ser corrigidos?
Falamos sobre Cristo, mas Cristo realmente governa nossas decisões?
Jesus declarou:
“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.”
João 13:35
A Igreja não pode ser apenas uma comunidade que fala sobre o Reino de Deus. Ela precisa ser uma comunidade que manifesta os valores do Reino de Deus.
O EVANGELHO ACIMA DA RELIGIOSIDADE
O problema não está na existência de organização, disciplina ou princípios dentro da Igreja. Tudo isso pode ter seu lugar.
O problema começa quando essas coisas ocupam o lugar que pertence exclusivamente a Cristo.
Quando a tradição se torna maior que a Palavra.
Quando a posição se torna maior que o caráter.
Quando o título se torna maior que o serviço.
Quando a aparência se torna maior que a verdade.
Quando a aprovação dos homens se torna maior que a aprovação de Deus.
E, principalmente:
quando a religião passa a esconder o Cristo que deveria revelar.
CRISTO É SUFICIENTE
Paulo encerra sua argumentação:
“Não aniquilo a graça de Deus; porque, se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde.”
Gálatas 2:21
Se pudéssemos alcançar a justiça por nosso próprio mérito, a cruz não seria necessária.
Mas não podemos.
Por isso Cristo veio. Por isso Cristo morreu. Por isso Cristo ressuscitou.
Nossa esperança não está em nós mesmos.
Está nele.
“Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem.”
1 Timóteo 2:5
UMA PALAVRA PARA A IGREJA
Que Deus nos livre de uma fé que seja apenas discurso.
Que Deus nos livre de uma religiosidade que substitua o relacionamento com Cristo.
Que Deus nos livre de buscar mais a aprovação dos homens do que a aprovação de Deus.
Que Deus nos livre de construir novamente aquilo que Cristo veio destruir.
E que possamos chegar ao ponto em que Paulo chegou:
“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim.”
Essa não deve ser apenas uma declaração escrita em uma página.
Que seja uma realidade em nossa vida.
Não é sobre o tamanho do nosso nome.
É sobre o tamanho de Cristo em nós.
Não é sobre sermos vistos.
É sobre Cristo ser visto através de nós.
Não é sobre ocupar um trono.
É sobre deixar Cristo reinar.
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