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PREGANDO AQUILO QUE NÃO SE VIVE - Por: Presbítero Marcos Benedito


​No cenário cristão atual, enfrentamos um dos maiores desafios à nossa credibilidade: a distância entre o que sai da nossa boca e o que habita em nosso coração. Recentemente, uma frase nos chamou a atenção por sintetizar essa contradição: "Eu não estou preparado para perdoar o meu irmão, mas você deve perdoar ao seu semelhante, pois aquele que não perdoa, não está em Cristo!"

​Essa declaração é o retrato de uma espiritualidade teórica, onde a Bíblia é usada como um manual de regras para o próximo, mas não como um espelho para a própria alma.

​A Anatomia da Incoerência

​Quando dizemos que o outro deve perdoar porque "quem não perdoa não está em Cristo", estamos pregando uma verdade bíblica absoluta. No entanto, ao completarmos com "eu não estou preparado para isso", admitimos estar fora da comunhão que exigimos do outro. É o que Jesus classificou como a marca dos fariseus:

​"Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los." (Mateus 23:4)


​Exemplos Bíblicos: O Espelho da Verdade

​Para entendermos a gravidade desse erro, precisamos olhar para os contrastes nas Escrituras:

  1. ​O Credor Incompassível (Mateus 18:21-35): Um homem que teve uma dívida impagável perdoada pelo rei, mas que, logo em seguida, mandou prender um companheiro por uma dívida mínima. Ele conhecia a lei do perdão (pois a recebeu), mas pregou a lei da punição para o outro. O resultado foi o juízo severo do rei.
  2. ​O Exemplo de Estêvão (Atos 7:60): Diferente de quem espera "estar preparado" (sentir vontade), Estêvão, no auge da dor do apedrejamento, decidiu obedecer: "Senhor, não lhes imputes este pecado". O perdão não é um ok sentimento, é uma decisão de obediência.

O Perdão como Condição, não Opção

​A frase citada no depoimento carrega uma verdade teológica perigosa para quem a profere sem praticar. A Bíblia é clara sobre a reciprocidade do perdão:

  • ​A Condição Divina: "Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; se, porém, não perdoardes... tampouco vosso Pai vos perdoará" (Mateus 6:14-15).
  • ​O Teste do Amor: "Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso" (1 João 4:20).

​Conclusão: Menos Discurso, Mais Cruz

​Pregar o perdão enquanto se retém a mágoa é oferecer uma água que você mesmo se recusa a beber. A Igreja da atualidade precisa urgentemente trocar a performance pela essência. O mundo não será conn por sermões eloquentes sobre o amor, mas por cristãos que, mesmo feridos, escolhem a via da cruz e liberam o perdão.

​Não espere "estar preparado" para perdoar. O preparo não vem da ausência de dor, mas da presença de Cristo em nós. Que a nossa prática seja o som mais alto da nossa pregação.

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