Existe uma pergunta que toda igreja deveria ter coragem de responder:
O que foi feito com tudo aquilo que Deus colocou nas mãos da congregação ao longo dos anos?
Não se trata de rebeldia. Não se trata de falta de submissão. Não se trata de questionar a autoridade estabelecida por Deus.
Trata-se de algo muito mais profundo:
Trata-se da responsabilidade diante de Deus.
A Bíblia ensina que tudo aquilo que administramos não nos pertence. Somos apenas mordomos daquilo que Deus colocou sob nossos cuidados.
Jesus declarou:
"Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel." (1 Coríntios 4:2)
A fidelidade não é apenas espiritual. Ela também envolve a administração dos recursos, dos bens, das ofertas e de tudo aquilo que o povo de Deus entrega para a obra.
Quando não existe transparência, inevitavelmente surgem perguntas.
E talvez a pergunta mais incômoda seja:
Por que alguém que age corretamente teria receio de prestar contas?
Jesus declarou:
"Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz." (João 3:20-21)
A luz não é inimiga da verdade.
A luz revela a verdade.
Quem anda na verdade não teme a transparência.
Quem administra corretamente não teme perguntas.
Quem age com honestidade não teme prestar contas.
Pelo contrário, sente alegria em demonstrar aquilo que foi realizado para a glória de Deus.
O Exemplo de Jó
Quando observamos a vida de Jó, encontramos um exemplo extraordinário de integridade.
A Bíblia o descreve assim:
"Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e era este homem sincero, reto e temente a Deus, e desviava-se do mal." (Jó 1:1)
Observe algo extraordinário.
Quando Satanás questionou a fidelidade de Jó, Deus não respondeu com argumentos vagos.
Deus apresentou fatos.
Deus apresentou resultados.
Deus apresentou aquilo que Jó possuía.
A Bíblia registra detalhadamente:
"Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas e muitíssima gente ao seu serviço." (Jó 1:3)
Anos depois, quando Deus restaurou Jó, novamente as Escrituras registram detalhadamente tudo o que lhe foi devolvido:
"Também o Senhor acrescentou a Jó outro tanto em dobro a tudo quanto dantes possuía." (Jó 42:10)
E a Palavra continua listando os números:
"Possuía catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas." (Jó 42:12)
Por que Deus fez questão de registrar tudo?
Porque Deus é Deus de verdade.
Deus não trabalha nas sombras.
Deus não trabalha em segredos quando se trata daquilo que pode ser comprovado.
Deus mostrou o que Jó possuía.
Deus mostrou o que Jó perdeu.
E Deus mostrou o que Jó recebeu novamente.
Tudo estava diante dos olhos de todos.
Perguntas que Precisam Ser Feitas
Se Deus registrou até o número de ovelhas, camelos e bois de Jó, por que tantas igrejas não conseguem informar claramente o destino de seus próprios bens?
Onde estão os instrumentos comprados ao longo de décadas?
Onde estão os teclados?
Os violões?
As guitarras?
As baterias?
As mesas de som?
Os amplificadores?
Os microfones?
Os sistemas de iluminação?
Quem autorizou sua venda, substituição ou descarte?
Existem registros?
Existem atas?
Existem inventários?
Existem relatórios?
Ou tudo depende apenas da palavra de uma única pessoa?
Se durante vinte ou trinta anos milhares e milhares de reais foram arrecadados em dízimos e ofertas, é pecado perguntar como esses recursos foram utilizados?
Ou seria justamente o contrário?
Não seria uma obrigação moral e espiritual oferecer essas informações ao povo de Deus?
O Ensinamento de Jesus Sobre Administração
Na Parábola dos Talentos, Jesus mostrou que todos os servos seriam chamados para prestar contas.
Não apenas os maus.
Todos.
"Depois de muito tempo veio o senhor daqueles servos e fez contas com eles." (Mateus 25:19)
Observe a expressão:
"fez contas com eles".
Prestação de contas não é falta de espiritualidade.
Prestação de contas é um princípio do Reino de Deus.
O próprio Jesus ensinou isso.
Quem administra deve estar preparado para explicar.
Quem recebe deve estar preparado para responder.
Quem governa deve estar disposto a demonstrar.
Quando o Poder se Torna Absoluto
O problema surge quando a autoridade espiritual se transforma em poder sem limites.
Quando o líder pode excluir.
Pode afastar.
Pode julgar.
Pode condenar.
Pode humilhar.
Pode perseguir.
Pode determinar quem permanece e quem sai.
Mas ninguém pode lhe fazer perguntas.
Nesse momento, algo está errado.
Porque a Bíblia afirma:
"Nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes servindo de exemplo ao rebanho." (1 Pedro 5:3)
O pastor foi chamado para servir.
Não para dominar.
Foi chamado para conduzir.
Não para controlar.
Foi chamado para cuidar das ovelhas.
Não para agir como proprietário delas.
As ovelhas pertencem a Cristo.
A igreja pertence a Cristo.
Os recursos pertencem a Cristo.
O patrimônio pertence a Cristo.
O Silêncio Também Produz Consequências
Muitos membros permanecem décadas contribuindo.
Trabalham.
Evangelizam.
Limpam.
Pintam.
Constroem.
Doam.
Ofertam.
Dizimam.
Abrem mão de necessidades pessoais para investir na obra.
Mas chegam ao final da caminhada sem saber o que foi feito daquilo que ajudaram a construir.
E então surge uma pergunta diante de Deus:
A omissão também não precisa ser confrontada?
O profeta Ezequiel escreveu:
"Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos!" (Ezequiel 34:2)
A advertência é forte.
Porque Deus não ignora a forma como seus servos administram aquilo que lhes foi confiado.
Um Chamado à Consciência
Cada líder um dia estará diante do Senhor.
Cada tesoureiro.
Cada administrador.
Cada pastor.
Cada dirigente.
Cada pessoa que recebeu responsabilidade sobre os recursos da casa de Deus.
Jesus declarou:
"A quem muito foi dado, muito será exigido." (Lucas 12:48)
Não haverá cargos naquele dia.
Não haverá títulos.
Não haverá influência.
Não haverá proteção institucional.
Haverá apenas a verdade.
E a pergunta do Senhor poderá ser simples:
"O que você fez com aquilo que coloquei em suas mãos?"
A igreja precisa voltar a compreender que transparência não é ameaça.
Transparência é testemunho.
Prestação de contas não é desconfiança.
Prestação de contas é responsabilidade.
E liderança não é privilégio.
Liderança é serviço.
Que cada cristão examine seu coração.
Que cada membro tenha coragem de buscar a verdade.
Que cada líder tenha humildade para prestar contas.
E que todos se lembrem de que existe um Deus que vê aquilo que é feito publicamente e aquilo que é escondido, um Deus diante do qual nada permanece oculto.
"Porque nada há encoberto que não haja de revelar-se; nem oculto que não haja de saber-se." (Lucas 12:2)
Diante dessa realidade, a pergunta permanece:
Se tudo um dia será revelado por Deus, por que não viver hoje com a mesma transparência que será exigida naquele grande dia?

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