Nem sempre a pauta do programa de Serginho Groisman me agrada. Mas, no último sábado, minha esposa insistiu para que eu assistisse ao programa, dizendo:
"Hoje tem tudo a ver com você. O Tiaguinho está homenageando a música preta brasileira."
Confesso que fui para a frente da televisão com certa expectativa.
Logo no início, porém, comecei a estranhar a composição dos convidados. Não porque os artistas presentes não tenham valor ou talento. Muito pelo contrário. Mas porque a proposta anunciada era uma homenagem aos precursores e à história da música negra brasileira.
Quando falamos em música negra no Brasil, estamos falando de uma herança riquíssima, construída por gerações de artistas que abriram caminhos no samba, no samba-rock, na soul music, no funk, no rap e em tantas outras manifestações culturais que ajudaram a moldar a identidade musical do país.
Entre os convidados estavam nomes importantes como Sandra de Sá, Fat Family, Paula Lima, Sampa Crew e outros artistas ligados, de alguma forma, a essa trajetória. Ainda assim, fiquei com a sensação de que faltavam justamente aqueles que ajudaram a construir os alicerces dessa história.
Como fazer uma homenagem à música negra brasileira sem a presença ou ao menos uma referência mais destacada a nomes como Tony Tornado, um dos maiores pioneiros da soul music nacional? Como não lembrar de Carlos Dafé, um dos grandes responsáveis pela construção da black music brasileira? Como ignorar a importância da Banda Black Rio, da Vitória Régia, dos Racionais MC's, de Mano Brown e de tantos outros que marcaram profundamente a cultura negra e a música popular brasileira?
Talvez alguns desses artistas não aceitassem participar de um programa na televisão aberta. Talvez existam questões de agenda ou de produção. Mas uma homenagem verdadeira não pode esquecer aqueles que ajudaram a escrever essa história.
Outro aspecto que me chamou a atenção foi a releitura de clássicos consagrados. Em vários momentos, músicas originalmente concebidas em outros estilos foram transformadas em samba, descaracterizando arranjos que fizeram parte da identidade de seus criadores. É claro que releituras fazem parte da arte. Mas quando a proposta é homenagear uma história, é preciso ter cuidado para que a essência dessa história não se perca.
Foi bonito ver artistas negros ocupando espaço na televisão e celebrando sua arte. Isso sempre será importante.
Mas também fiquei com a impressão de que a homenagem poderia ter sido mais profunda, mais representativa e mais fiel às raízes da música negra brasileira.
Afinal, homenagear não é apenas cantar as músicas.
É reconhecer quem abriu os caminhos.
É dar voz aos pioneiros.
É preservar a memória.
E, acima de tudo, é respeitar a história.
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