"Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente... porque és morno, estou a ponto de vomitar-te da minha boca." (Apocalipse 3:15-16)Entre as sete igrejas da Ásia Menor mencionadas no livro de Apocalipse, talvez nenhuma represente de forma tão impressionante a realidade de grande parte da igreja contemporânea quanto Laodiceia. Das sete, foi a única que não recebeu nenhum elogio de Jesus. Apenas advertências, repreensão e um chamado urgente ao arrependimento.
A cidade de Laodiceia
Laodiceia localizava-se no vale do rio Lico, na atual Turquia, próxima às cidades de Hierápolis e Colossos. Era uma das cidades mais ricas do Império Romano.
No ano 60 d.C., um grande terremoto destruiu a cidade. Entretanto, devido à sua enorme prosperidade econômica, os habitantes recusaram a ajuda financeira do governo romano e reconstruíram tudo com seus próprios recursos.
Essa autossuficiência tornou-se motivo de orgulho.
Além da riqueza, Laodiceia destacava-se por três características históricas:
Era um importante centro bancário.
Produzia luxuosos tecidos de lã negra, famosos em todo o Império.
Possuía uma escola de medicina reconhecida, especialmente pela fabricação de um colírio utilizado para doenças dos olhos.
Curiosamente, Jesus utiliza exatamente essas três riquezas da cidade para denunciar sua pobreza espiritual.
O problema da água morna
Há ainda outro detalhe histórico extremamente significativo.
Laodiceia não possuía fontes próprias de água.
A água chegava por aquedutos vindos de Hierápolis, famosa por suas águas termais, e da região de Colossos, conhecida por suas águas frias e cristalinas.
Quando essa água chegava a Laodiceia, já estava morna, carregada de minerais e desagradável ao paladar.
Por isso Cristo declara:
"Porque és morno... estou a ponto de vomitar-te da minha boca."
Os cristãos daquela cidade entendiam perfeitamente essa comparação.
Jesus não estava dizendo que preferia pessoas espiritualmente frias ao invés de mornas. A comparação é funcional: tanto a água fria quanto a quente possuem utilidade. A água morna, porém, perdeu sua finalidade.
A grande ilusão espiritual
O maior pecado de Laodiceia não era a perseguição.
Não era a idolatria.
Não era a pobreza.
Era a ilusão.
Eles acreditavam estar vivendo o melhor momento espiritual de sua história.
Diziam:
"Estou rico, enriquecido e de nada tenho falta."
Mas Jesus respondeu:
"Tu és infeliz, miserável, pobre, cego e nu."
Que contraste!
A igreja enxergava abundância.
Cristo via falência espiritual.
O retrato de muitas igrejas atuais
Infelizmente, essa descrição parece ter sido escrita para inúmeras igrejas dos nossos dias.
Vivemos uma época marcada por:
templos grandiosos;
tecnologia de última geração;
excelentes estruturas;
forte presença nas redes sociais;
arrecadações milionárias;
eventos gigantescos.
Entretanto, em muitos lugares, observa-se a diminuição da oração, do arrependimento, da santidade, do temor de Deus e da exposição fiel das Escrituras.
Há igrejas cheias de pessoas, mas vazias da presença de Deus.
Muito entretenimento.
Pouca transformação.
Muito marketing.
Pouco quebrantamento.
Muito espetáculo.
Pouca cruz.
O sucesso passou a ser medido por números, patrimônio e influência, quando a Bíblia continua medindo a igreja pela fidelidade a Cristo.
Cristo continua do lado de fora
Talvez a cena mais triste dessa carta seja Apocalipse 3:20.
"Eis que estou à porta e bato."
Curiosamente, Jesus não está batendo à porta do mundo.
Está batendo à porta da própria igreja.
Isso significa que uma igreja pode continuar funcionando normalmente, realizando cultos, campanhas e eventos, enquanto Cristo permanece do lado de fora.
Essa é uma das advertências mais solenes de toda a Bíblia.
Ainda existe esperança
Apesar da dura repreensão, Jesus encerra sua mensagem oferecendo graça.
Ele aconselha:
comprar ouro refinado pelo fogo, símbolo de uma fé genuína;
vestir roupas brancas, representando a justiça e a santidade;
aplicar colírio espiritual para voltar a enxergar.
Depois afirma:
"Eu repreendo e disciplino a todos quantos amo."
O objetivo da correção nunca foi destruir a igreja, mas restaurá-la.
Uma mensagem urgente para esta geração
A carta à igreja de Laodiceia continua extremamente atual.
Ela nos lembra que riqueza não substitui espiritualidade.
Estrutura não substitui santidade.
Popularidade não substitui comunhão com Deus.
Uma igreja pode impressionar os homens e, ao mesmo tempo, entristecer o Senhor.
O verdadeiro avivamento começa quando deixamos de confiar em nossos próprios recursos e voltamos a depender totalmente de Cristo.
Que a Igreja de hoje ouça a mesma exortação feita há quase dois mil anos:
"Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." (Apocalipse 3:22)
Que nunca sejamos conhecidos por nossa aparência de prosperidade, mas por uma fé viva, fervorosa e totalmente rendida ao Senhor Jesus Cristo.
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