Há uma grande diferença entre a justiça dos homens e a misericórdia de Deus. O ser humano costuma definir uma pessoa por seu pior erro. Deus, porém, embora não ignore o pecado, olha para o arrependimento e para o propósito que estabeleceu.
A história de Davi é uma das maiores provas dessa verdade.
Davi foi escolhido por Deus quando ainda era um simples pastor de ovelhas.
"O homem vê a aparência, porém o Senhor vê o coração." 1 Samuel 16:7
Ele derrotou Golias, unificou Israel, venceu guerras, estabeleceu Jerusalém como capital do reino e tornou-se o maior rei da história de Israel.
Entretanto, em determinado momento de sua vida, Davi falhou gravemente.
A Bíblia diz:
"Decorrido um ano, no tempo em que os reis costumam sair para a guerra, enviou Davi a Joabe... porém Davi ficou em Jerusalém." 2 Samuel 11:1
Enquanto deveria estar conduzindo o exército, permaneceu no palácio. Foi nesse momento que viu Bate-Seba.
Cometeu adultério.
Quando soube que ela havia engravidado, tentou esconder o pecado.
Chamou Urias, marido de Bate-Seba, esperando que ele fosse para sua casa. Urias, porém, recusou-se a desfrutar do conforto enquanto seus companheiros estavam lutando.
Então Davi praticou algo ainda mais grave.
Escreveu uma carta determinando que Urias fosse colocado na parte mais perigosa da batalha e que os demais soldados recuassem.
O próprio Urias levou, sem saber, a carta que determinava sua morte.
2 Samuel 11:14-17
Foi uma traição contra um dos seus homens mais fiéis.
Humanamente falando, Davi havia perdido qualquer autoridade moral.
Hoje, provavelmente seria cancelado, rejeitado, excluído e considerado indigno de continuar exercendo qualquer liderança.
Mas Deus enviou o profeta Natã.
Natã não passou a mão sobre o pecado.
Também não destruiu Davi.
Confrontou-o.
2 Samuel 12
Quando ouviu a repreensão, Davi não procurou desculpas.
Não culpou Satanás.
Não culpou Bate-Seba.
Não culpou as circunstâncias.
Ele apenas declarou:
"Pequei contra o Senhor." 2 Samuel 12:13
Seu arrependimento foi tão profundo que produziu um dos textos mais emocionantes das Escrituras.
No Salmo 51 ele clama:
"Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade... Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito reto." Salmo 51:1,10
Deus perdoou Davi.
Mas não retirou todas as consequências.
O filho morreu.
A espada nunca mais se afastou de sua família.
Houve rebeliões.
Seu próprio filho Absalão levantou-se contra ele.
2 Samuel 12:10-14
Isso mostra uma verdade importante.
Perdão não elimina necessariamente as consequências do pecado.
Mas também mostra outra verdade igualmente importante.
As consequências não anulam o propósito de Deus para quem se arrepende.
Mesmo depois daquele episódio, Deus permitiu que Davi realizasse obras extraordinárias.
Ele organizou todo o serviço do Templo.
Separou sacerdotes.
Organizou os levitas.
Estabeleceu porteiros.
Nomeou músicos.
Criou turnos de serviço.
Preparou ouro, prata, bronze, ferro, madeira e pedras preciosas para a construção do Templo.
Embora Deus não permitisse que ele construísse o Templo por ter sido homem de guerra (1 Crônicas 22:8), foi Davi quem deixou praticamente tudo preparado para que seu filho Salomão realizasse a obra.
Além disso, escreveu dezenas de Salmos.
Até hoje milhões de pessoas são consoladas por palavras como:
"O Senhor é o meu pastor; nada me faltará." Salmo 23:1
"Esperei com paciência no Senhor." Salmo 40:1
"Entrega o teu caminho ao Senhor." Salmo 37:5
Se Davi tivesse sido descartado pelos homens, talvez nunca conheceríamos essas mensagens que fortalecem tantas vidas.
Mais do que isso.
Foi com Davi que Deus fez uma aliança extraordinária.
"O teu reino será firme para sempre diante de ti; teu trono será estabelecido para sempre." 2 Samuel 7:16
Séculos depois, Jesus nasceu da descendência de Davi.
Por isso é chamado repetidas vezes de:
Filho de Davi.
A graça de Deus não apagou o pecado de Davi da história.
A Bíblia registra tudo.
Mas também registra que Deus é especialista em restaurar quem se humilha diante d'Ele.
Essa verdade aparece em toda a Escritura.
Pedro negou Jesus três vezes.
Mesmo assim, Jesus o restaurou.
João 21:15-17
Pedro pregou no dia de Pentecostes, e cerca de três mil pessoas se converteram.
Atos 2:41
Paulo perseguiu cristãos.
Prendeu homens e mulheres.
Aprovou a morte de Estêvão.
Atos 8:1-3
Mas Deus transformou o perseguidor no maior missionário do cristianismo.
O próprio Paulo escreveu:
"Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal." 1 Timóteo 1:15
Jonas desobedeceu.
Fugiu da presença de Deus.
Mesmo assim, Deus lhe deu uma nova oportunidade.
Jonas 3
João Marcos abandonou a primeira viagem missionária.
Paulo chegou a recusá-lo.
Anos depois, o mesmo Paulo escreveu:
"Toma contigo Marcos e traze-o, porque me é útil para o ministério." 2 Timóteo 4:11
Deus continua escrevendo histórias de restauração.
Por isso, devemos tomar cuidado para não fazer com as pessoas aquilo que Deus não fez com Davi.
Se Deus tivesse desistido dele, Israel perderia seu maior rei.
Os Salmos perderiam um de seus maiores autores.
O Templo não teria sido preparado.
A linhagem messiânica não passaria pela casa de Davi conforme a promessa.
E a humanidade deixaria de contemplar um dos maiores exemplos do poder restaurador da graça de Deus.
A conclusão é clara.
O pecado deve ser abandonado.
O arrependimento deve ser verdadeiro.
A disciplina de Deus deve ser aceita.
Mas ninguém tem autoridade para declarar definitivamente inútil alguém que Deus decidiu restaurar.
Como afirma a Palavra:
"Porque sete vezes cairá o justo e se levantará." Provérbios 24:16
E ainda:
"Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os contritos de espírito." Salmo 34:18
E, finalmente:
"Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus." Filipenses 1:6
Que nunca confundamos disciplina com rejeição, nem consequência com abandono. Deus disciplina os filhos que ama (Hebreus 12:6), mas continua sendo o Deus da restauração. A história de Davi prova que um homem pode cair profundamente, arrepender-se sinceramente e, pela graça de Deus, continuar sendo instrumento para cumprir um propósito eterno.

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